Documentário ‘Iyabassé e a Comida de Santo’ é lançado com exibição gratuita na Casa Luanda
No próximo dia 14, às 19h30, a Casa Luanda recebe o lançamento do curta-metragem documental “Iyabassé e a Comida de Santo”, com entrada gratuita e classificação livre. A exibição contará com a presença da protagonista Mãe Carminha da Oxum; do criador da trilha sonora original, Ogan Dayvison Guian; da equipe de produção e do Maracatu Roda do Encanto, grupo que mantém profundos vínculos espirituais e comunitários com a retratada no filme. A programação inclui ainda bate-papo, distribuição de comida de axé e muita música.
Produzido com recursos do Profice, o documentário se aproxima da trajetória de Mãe Carminha da Oxum, Iyabassé e uma das mais antigas lideranças femininas da comunidade do Pina, no Recife. A equipe de produção do projeto explica que a Iyabassé é a cozinheira do terreiro, a mulher responsável por preparar as comidas sagradas que alimentam os orixás e sustentam o axé da casa. Sua função não é comum, não é doméstica, não é simples: é espiritual. A cozinha do terreiro é um espaço de fundamento e a Iyabassé é a guardiã desse território onde o alimento se transforma em reza, força e comunicação com o divino.
Nascida em 1950, na comunidade da Ilha do Joaneiro, em Campo Grande, no Recife, Mãe Carminha cresceu dentro do Candomblé e na década de 1970 passou a fazer parte de um terreiro, onde foi escolhida por Xangô para exercer a função de Iyabassé da casa. Reconhecida como uma das Mães do Pina, senhoras fundamentais para a base da comunidade, tornou-se referência nacional pelo cuidado e zelo com os saberes de tradições de matriz africana.
Com direção e pesquisa de Laís Fialho, argumento e roteiro de Leo Falcão, coordenação de produção audiovisual de Max Miranda (Fenda) e coordenação de projeto de Douglas Kodi, o filme constrói uma narrativa para refletir sobre relações entre crença, coletividade, cultura alimentar e práticas contracoloniais, colocando em circulação saberes historicamente apagados e desvalorizados e fazendo da presença de uma mulher negra e sacerdotisa uma força de criação no audiovisual.
Comida de santo
No terreiro, há um entendimento de que “tudo” come. O chão come, as árvores sagradas comem, os atabaques comem, os assentamentos dos orixás comem; e tudo mais que tenha a função e o sentido para ser sacralizado terá um tipo de ingrediente, de preparo; terá uma receita para cada ritual específico.
No Candomblé, a Iyabassé é mais do que cozinheira, ela ocupa uma função espiritual essencial, preservando conhecimentos transmitidos entre gerações, nos quais cada ingrediente, cada preparo e cada ritual possuem significado próprio. Ela conhece o tempo de cada preparo, o segredo de cada folha, o respeito que cada orixá exige. Sabe que uma comida nunca é apenas comida. É oferenda, é energia, é caminho aberto. A Iyabassé aprende observando, repetindo gestos antigos, entendendo que o fogo, a água, as ervas e as raízes obedecem a ritmos que não se aceleram. Em cada panela que ela mexe, existe um fundamento. Em cada cheiro que se espalha pelo barracão, existe um aviso de que o axé está sendo alimentado.
Ela seleciona, limpa, organiza, separa, cozinha e entrega. É uma função que carrega disciplina, paciência e devoção. Na cozinha do terreiro não cabe improvisos: tudo tem ordem, intenção e cuidado. Ela segue cada passo com reverência, porque sabe que um prato preparado com respeito é um canal direto entre o humano e o orixá. Essas mulheres são pilares silenciosos dentro do candomblé. Muitas vezes não aparecem na linha da frente, mas sem elas nenhuma obrigação se completa. Elas garantem que o alimento esteja correto, puro, preparado dentro dos preceitos, mantendo viva uma tradição que se sustenta desde as primeiras mulheres negras que, mesmo escravizadas, preservaram seus saberes preparando comidas para seus orixás e para suas comunidades.
“Quando idealizei esse projeto, meu interesse era contar a história de Mãe Carminha e, com isso, valorizar essa importante tecnologia ritual dos candomblés, celebrando todas as iyabásses. É claro que fiquei apreensiva com o modo como ela lidaria com as câmeras e com o fato de contar sua história para tanta gente, mas ali Oxum reinou, ela tirou de letra. Todo o processo de gravação das entrevistas, da feitura dos alimentos e, depois, da decupagem e seleção do que seria possível e pertinente mostrar foi muito especial e contou com a participação dela. Quem tiver os sentidos disponíveis para perceber vai aprender algo com o recado”, conta a diretora e pesquisadora Laís Fialho.
Serviço:
Exibição do documentário “Iyabassé e a Comida de Santo”
Com bate-papo com a equipe e convidados, distribuição de comida de axé e apresentação do Maracatu Roda do Encanto
Dia 14 de agosto (sexta-feira)
Horário: 19h30
Local: Casa Luanda (Av. Gastão Vidigal, 55)
Entrada gratuita e Acessível em Libras
Crédito da foto: Max Miranda (Fenda) / Matheus Juvencio
Projeto aprovado no Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura | PROFICE da Secretaria de Estado da Cultura | Governo do Estado do Paraná.