Por que odiamos garotas que gostam de moda?
Os filmes dos anos 2000 te ensinaram que “não ligar para aparência” era a única forma de ser escolhida
Por Marri Mamede e Mari Parma
Quem acompanha o blog, já sabe: moda é narrativa, expressão e comunicação. No cinema, não poderia ser diferente: cada detalhe é feito para inserir o espectador na narrativa e, assim, a moda torna-se uma grande potência imersiva nas telas.
Os anos 2000, nos Estados Unidos, foram marcados por filmes de embates entre mocinhas inteligentes e meninas… malvadas. Como não se lembrar das esnobes Irmãs Vandergeld, de As Branquelas, ou da “vilania glamourosa” de Regina George?
O retrato daquela época era: as garotas legais eram mais comportadas, não gostavam de rosa e nem de maquiagem - mas eram muito inteligentes. Já as garotas más eram populares, amavam brilho, gostavam de se arrumar e eram sempre vistas como fúteis.

A mensagem transmitida vai além de “moda é fútil”. Ver as mulheres que gostam de se arrumar sendo associadas a maldade e burrice nos fez crescer demonizando esses interesses. É muito importante lembrar que essas protagonistas nunca foram “feias” ou fora do padrão. Assim, a beleza nos foi apresentada como algo necessário, mas que precisava existir naturalmente. E qualquer esforço intencional na aparência é crueldade e falta de intelecto.
Hoje, a garota que é “diferente das outras” ganhou até nome próprio: pick me. Mas rotular quem foi ensinado a pensar assim só nos afasta de resolver o problema. É essencial que a gente passe a entender a moda como narrativa, expressão, comunicação e arte - tão intelectual como todas as outras.
Como onda contrária, muitos personagens começaram a ser criados justamente para quebrar esse estereótipo. Como Legalmente Loira, onde Elle Woods acaba superando esse arquétipo de “patricinha fútil” e consegue estudar Direito na Universidade de Havard, sem deixar sua personalidade e seu brilho de lado – pelo contrário - a autenticidade e o conhecimento sobre moda tornam-se um diferencial para atuar na defesa dos clientes.

Quer mais indicações? Confere a lista:
1 - Legalmente Loira;
O filme que inspirou este texto, claro. A Elle é o ícone anti-estereótipo quando se fala de personagens femininas. Nada vai te tirar do buraco como reassistir a volta por cima que ela dá na própria vida.
2 - Patricinhas de Beverly Hills;
Quando o assunto é patricinha gentil e inteligente, você tem que falar da Cher e da Dionne! Não só serviram um dos looks mais icônicos da história do cinema, como também foram pioneiras em mostrar garotas fashion de grande coração.
3 - Emma;
O clássico de Jane Austen que inspirou a última indicação (2), tem que vir sim para a lista. Contra argumentos de só uma “menina mimada”, Emma se mostra uma personagem amorosa e cativante.
4 - Os Delírios e Consumo de Becky Bloom;
Ninguém é mais fã de moda do que nossa jornalista que sonha em trabalhar na revista Alette. Mesmo assim, durante todo o filme, conhecemos uma personagem inteligente, amorosa e autêntica. É a maioral!
5 - Oito mulheres e um segredo;
Convenção de divas! Tem coisa mais icônica do que reunir 8 amigas para o roubo mais organizado e impossível de solucionar da história do Met Gala? Tem. Fazer isso sem descer do salto.
6 - Ladybird;
Apesar de não ser só rosa e glitter, a Lady Bird quebra muitos estereótipos da garota adolescente tradicional. Um dos meus retratos favoritos da adolescência feminina, real, difícil e bonito.
7 - Frances Ha;
Engraçada, inteligente, vulnerável e - um tanto - perdida. Frances é uma mulher real. Apesar de não ser um filme com foco no tema da moda, gosto muito de como construíram uma personagem interessante e complexa sem fazer ela odiar a própria aparência ou quem cuida dela.
8 - Barbie;
Preciso explicar? Ela nos ensinou desde cedo a acreditar em poder ser “tudo que quiser” tendo o guarda-roupa mais maneiro do mundo.
9 - Adoráveis Mulheres;
As 4 irmãs March vieram nos ensinar que diferentes sonhos e interesses não fazem ninguém maior ou melhor. Minha indicação é a versão de 2019, porque é minha favorita!
10 - De Repente 30;
Apesar de ter seus momentos de rivalidade feminina, o interesse por moda não é exclusivo da vilã! Dá pra ver a protagonista babando no closet dos sonhos e salvando a revista que trabalha da falência com talento e genialidade entre alguns minutos de diferença!